Mentiras Aceitáveis

Esses dias estava conversando com minha terapeuta sobre a nossa necessidade de inventar sempre desculpas esfarrapadas para um simples não com medo do que o outro vai pensar, sentir e de como ele pode reagir.

As nossas mentirinhas bobas e inofensivas vão se tornando um costume. Não estou falando aqui de mentiras que podem criar um problema ou algo assim, mas aquelas bobeirinhas pra evitar conflitos, sabem?

Quando nos chamam para um almoço de domingo, por exemplo, e respondemos com uma desculpa do tipo “hoje não posso porque estou com dor de cabeça” quando a verdade seria um simples “não vou porque não quero ir”.

Dá uma coisa ruim só de pensar em falar isso. Como é que o outro vai receber essa verdade assim a seco?

Parece sempre que se o nosso querer não tem nenhum valor então uma mentira vai ter.

De fato o nosso querer não tem mesmo valor, pelo menos não para que não nos percebe. Porque quem nos enxerga além de um contrato social, ou além de meros prestadores de serviços para expectativas alheias… ah sim, esses conseguem entender quando nós estamos respeitando a nossa vontade.

Os outros enxergam como uma ofensa: como assim recusar um convite? é um absurdo!

E vem o discurso de vitimização. E vem o drama. E vem o julgamento precipitado.

Na hora que me surge um convite chato e inesperado desses duas alternativas se apresentam instantaneamente:

  • primeira: ceder para evitar o drama e fazer algo contra a minha vontade “só dessa vez” porque eu não quero ninguém perturbando o meu juízo e nesse caso ignoro totalmente a minha própria vontade, mas sempre pago o preço ao chegar lá e uma voz incansável martela na minha cabeça: “era melhor ter ficado em casa”
  • segunda: inventar uma mentirinha inofensiva e ficar em paz com a minha verdade, mas me sentir horrível por ter mentido

Ok, tem também a terceira opção que é falar a verdade assim na cara mesmo, mas quem é que consegue?

E até que ponto falar a verdade e causar um mal-estar por algo pequeno é mais conveniente do que inventar qualquer coisa e depois de um tempo nem lembrar mais do acontecido?

Quando eu era pequena todos me diziam que mentir era errado, mas a verdade é que eu cresci vendo as pessoas cometendo as tais mentiras inofensivas e aceitáveis para manter a boa convivência.

Ainda me pergunto: quem é que consegue falar sempre a verdade doa a quem doer e aguentar todas as consequências?

E qual é a medida certa para parar na sinceridade antes de avançar para o abismo do sincericídio?

Tem dias que eu fico confusa sobre como agir, aliás, mais confusa do que o normal.

E como diria Dr. House: everybody lies (todo mundo mente).


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